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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Eu conheci um peregrino.

Eu conheci um peregrino. Não é todo mundo que tem a chance de viver um encontro destes. Por isso digo com certa dose de orgulho: eu conheci um peregrino.     

Não esbarrei nele por acaso. Uma neblina pesada atrapalhava a sua caminhada e ele estava confuso... Ele chegou cansado, eu diria até que chegou exausto. E me ensinou muito sobre a vida e o ato de peregrinar. 

Ele me ensinou a importância da estratégia em vários aspectos da vida. Me ensinou a olhar a beleza que existe em paisagens, em construções, nas pessoas, nos detalhes que escapam a um olhar desatento. 
Ele me ensinou que é possível desmontar o medo com frases e atitudes coerentes: certa vez, na praia, o medo veio lhe fazer companhia e lhe falar de coisas que ficaram para trás no tempo ou que eram fruto da imaginação (medos costumam ser muito criativos, apesar de pouco originais!). Pois o peregrino tentou desviar a atenção para a paisagem e a beleza que o rodeava naquele momento. Mas o medo não desistiu e o ameaçou de morte (ah! Trágica e mesquinha estratégia do medo...). Neste momento, o peregrino olhou o medo nos olhos e lhe disse com muita convicção: “pois veja que vou morrer admirando uma bela vista!”. Desarmou o medo. Destruiu a chantagem do medo. Soube resgatar a sua vida das mãos do medo: “me devolve a minha vida porque você não sabe cuidar dela! Eu sei fazer muito melhor!”.

Mas, como eu dizia antes, quando o conheci, ele estava exausto. Sua caminhada tinha sido longa, por todos os continentes do planeta e quase todos os países que a humanidade conseguiu criar construindo fronteiras invisíveis (e, em alguns casos, bem visíveis!). Sua caminhada havia sido longa e desafiadora!  E começou cedo, muito cedo... Eu poderia até dizer que seu primeiro choro, ainda na maternidade, foi o nascer do peregrino; que seus primeiros passos  foram estimulados pela certeza de que caminhar era preciso; e que sua busca pela beleza nasceu da falta dela no olhar de quem olhava (ou deveria olhar) por ele. Pressionado desde sempre, o peregrino forjou sua alma e construiu sua fortaleza interior. Descobriu virtudes que lhe servem de bússola – honestidade, amizade, estratégia, determinação, meta, beleza, persistência, entre tantas outras – e virtudes que luta para que sejam mais do que belas palavras – respeito, cuidado, carinho, família, afeto...

Uma força interior o impulsiona a seguir, como se lhe dissesse o tempo todo: “Vá em frente! Vá, enfrente!”. E assim ele fez: seguiu em frente, enfrentando desafios os mais diversos e descansando em lugares os mais variados. Peregrino que é, andou muito em busca de respostas... Andou, andou, andou e chegou naquele ponto da jornada que os peregrinos conhecem bem: o momento de ouvir o seu coração. Não mais ser guiado pela lógica ou pelo impulso de seguir em frente, mas poder ouvir seu coração.   

Foi neste momento que conheci o peregrino. Seu coração falava alto, gritava, chorava, queria ser ouvido. Contava histórias de passados distantes e sonhos de futuros incertos. Mostrava suas feridas – e como elas doíam! E apontava com desconfiança para o medo – esse infeliz parasita que insistia em caminhar ao lado do peregrino e atrasar a sua jornada.     

Seria o peregrino capaz de lidar com tantas coisas ao mesmo tempo? Nem ele mesmo sabia. Mas, aquele que nasce peregrino, tem espírito livre e a alma cheia de horizontes. Logo ele se recuperou, ouviu seu coração, cicatrizou as feridas, retomou sua força, protegeu seu coração, deixou de lado as histórias que pesavam e levou somente aquelas que são essenciais – as que são leves e simples. Respirou fundo, planejou sua jornada, levantou-se. Já não estava frágil, nem exausto. Estava renovado, renascido. Era ainda um peregrino, mas em novo estágio de vida: um peregrino que sabe ouvir seu coração. Um peregrino que equilibra ação e emoção. Podia seguir viagem.      

E, quando a neblina passou, o caminho voltou a se abrir à sua frente. Despediu-se daqueles que ele ama. Despiu-se daquilo que não mais lhe serve. Envolveu-se de leveza e projetos. E seguiu o seu caminho.      

Quando voltarei a vê-lo? Só o tempo sabe... Por hora, sinto-me grata à vida por ter-me dado a chance de conhecer um peregrino – e aprender com ele. E, envolvida em gratidão, vou tecendo a esperança de que ele continue construindo sua história como sempre fez: com ética e estética.

Este texto foi escrito em homenagem a um amigo peregrino. Que ele continue nos presenteando com a beleza que ele enxerga no mundo! 

sábado, 25 de setembro de 2010

Mensagem Inicial para os meus amigos

Minha primeira mensagem é uma ode à amizade. Para isso, faço minha as palavras de Vinícius de Moraes:

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências … A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí, e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer… Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente, os que só desconfiam – ou talvez nunca vão saber – que são meus amigos!  
Vinicius de Moraes